C   redit
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
Fernando Pessoa. 
Tudo destruído por briguinhas à toa. Implicâncias por nada. Ficar puto por tudo e por nada. Dia a dia, ano a ano, ralando. Em vez de se ajudar um ao outro, a gente se cortava todos os dias, por uma coisa e outra. Uma aporrinhação infindável. Torna-se uma competição barata. E, uma vez que a gente entra, vira um hábito. Parece que não vai conseguir sair. A gente quase não quer sair. E de repente sai. Completamente.
Charles Bukowski.  
É só me recompor,
Mas eu não sei quem sou
Me falta um pedaço teu.
Preciso me achar,
Mas em qualquer lugar estou,
Rodando. Sem direção eu vou.
Morcego sem radar
Voando a procurar
Quem sabe um indício teu.
Queimando toda fé,
Seja o que Deus quiser! Eu sei
Que amargo é o mundo sem você.
Você me entorpeceu
E desapareceu.
Vou ficando sem ar!
O mundo me esqueceu!…
Meu sol escureceu…
Vou ficando sem ar
Esperando você.
Sem radar
Não me mostre o paraíso e depois o destrua.
Não Conte a Ninguém.
Que lugar do mundo é melhor pra se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?
Martha Medeiros
Confesso. Eu acho bonito quando alguém valoriza uma pessoa. Gosto de ver quando alguém que ama, cita as qualidades e os defeitos que mesmo irritante o faz amar mais. Isso está em falta no mundo. Ver pessoas amando tão intensamente capaz de gostar até dos defeitos. O valor é tão necessário quanto amor. Amor só não basta, só amar não é suficiente. Valor também conta.
Transbordais.  
Na segunda vez já era ainda mais certo do que na primeira. Na segunda vez o beijo já se conhecia, a mão já era um pouco menos tímida na hora de procurar a outra. Na primeira vez a gente se reconheceu, na segunda a gente se encaixou. E assim foi, nas incontáveis vezes de nós dois sentados em um banco qualquer ou deitados numa cama confortável. Desde a segunda vez nós já estávamos em casa, e, olha, sendo sincera, eu nunca pensei que existia mesmo um lar por aí para mim. Eu não costumo descansar, não que considere falta de tempo, apenas não sei desacelerar, você percebeu isso de cara: a minha voz devagar só engana. E desde então você é um lar para deitar a cabeça e só deixar rolar, mesmo que tudo lá fora se perca enquanto eu me encontro. Na primeira vez eu bati à porta. Na segunda minha escova de dente já estava contigo. Na metáfora da vida eu te quis desde o primeiro segundo. Na corrida dos dias eu ainda tropeço para nunca, nunca te deixar partir.
— Camila Costa - trechos de nós.
De qualquer forma, não esqueça das seguintes verdades: não faça nada que não te deixe em paz consigo mesma; cuidado com o que anda desabafando; conte até três (tá certo, se precisar, conte mais); antes só do que muito acompanhado; esperar não significa inércia, muito menos desinteresse; renunciar não quer dizer que não ame; abrir mão não quer dizer que não queira. O tempo ensina, mas não cura.
Martha Medeiros. 
Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto desaforado, não me sinto incomodado, não me sinto diminuído, não me sinto constrangido. Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas. Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro. Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei meus princípios, reinventei meu rosto de noite. Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher, que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas, que não economizo elogios, que coleciono sapatos. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay. Que seja bem alto. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.
Fabrício Carpinejar